Domingo, Julho 25, 2004
Psicose: um caso de fragilidade egóica e idéias ambíguas
Discuto aqui a abordagem a um paciente meu, H, entre seus 35 e 40 anos, que veio a mim para tratamento psicoterápico. Procurou o serviço por um surto psicótico que apresentou no começo do ano.
Sua estrutura psíquica a princípio me pareceu um tanto frágil. Pais rígidos e distantes, pai o açoitava, mãe pouco afetiva ; não tinha aproximação afetiva com ninguém à exceção do irmão. Este era a única pessoa em quem confiava. Desconfiava inclusive de amigos, sua esposa, de seus 3 filhos.
No começo do ano presente H começou a se sentir 'estranho'. Sentia que algo terrível iria lhe acontecer; não sabia o que. Seus pensamentos e sua estrutura paranóica ganharam em intensidade quando sofreu quatro assaltos na mesma semana. Isto pode ser lido como gerando uma fragilidade egóica que culminou com seu surto psicótico.
Em breves palavras, seu surto tomou lugar quando estava em um bar, pela manhã antes de ir trabalhar, e olhou para um homem. Diz H que o homem tinha olhos verdes, vestia-se bem, trajava botas. Este homem olhou fundo em seus olhos e 'transformou-se no demônio'. H saiu correndo, tentou se matar. Desde então vive assolado por um medo que não sabe distinguir de onde vem. Um sentimento intenso de morte iminente. Não sai mais de casa só, não dorme direito, acorda com pesadelos com a imagem do demônio. Extrema confusão metal que não o deixa pensar, e que às vezes o impede inclusive de organizar frases para tentar se comunicar com seus interlocutores.
Levando-se em conta sua estruturação psíquica até os 20 anos e outros inúmeros dados que ele traz à consulta, como por exemplo um clímax emocional associado a uma descarga violenta quando exigido seu papel de homem através do filho adolescente, podemos conceber a psicose de H como uma resposta à homossexualidade, à exemplo do Schreber de Freud. Esta idéia conflitante, gerada talvez de uma aproximação demasiada com sua mãe que fez com que se sentisse misturado à ela, misturado á feminilidade, teve seu ápice no encontro com a atraente e misteriosa figura do bar.
A consulta com H é pesada, desconexa. Fala pouco e apenas quando perguntado, olha desconfiado e com medo, sobrancelhas contraídas, boca trêmula, um pedido de ajuda.
As primeiras sessões foram difíceis; muita concretude em seu discurso, poucas brechas a serem exploradas. Entretanto acredito que, na última semana quando o vi, em uma re-encenação do momento exato de seu surto, H pareceu ceder um pouco e alçar essa idéia conflitante que gerou esse desmonte em seu ego; começou a falar um pouco mais deste peculiar momento em que houve a troca de olhares no bar.
Acredito que aos poucos, com esse movimento de trazer de volta aquele momento, ele consiga trazer, lentamente, à consciência a idéia (de suspeita de homossexualidade) que sua estrutura jogou para fora e fez retornar em um ataque esquizo-paranóide.
Discuto aqui a abordagem a um paciente meu, H, entre seus 35 e 40 anos, que veio a mim para tratamento psicoterápico. Procurou o serviço por um surto psicótico que apresentou no começo do ano.
Sua estrutura psíquica a princípio me pareceu um tanto frágil. Pais rígidos e distantes, pai o açoitava, mãe pouco afetiva ; não tinha aproximação afetiva com ninguém à exceção do irmão. Este era a única pessoa em quem confiava. Desconfiava inclusive de amigos, sua esposa, de seus 3 filhos.
No começo do ano presente H começou a se sentir 'estranho'. Sentia que algo terrível iria lhe acontecer; não sabia o que. Seus pensamentos e sua estrutura paranóica ganharam em intensidade quando sofreu quatro assaltos na mesma semana. Isto pode ser lido como gerando uma fragilidade egóica que culminou com seu surto psicótico.
Em breves palavras, seu surto tomou lugar quando estava em um bar, pela manhã antes de ir trabalhar, e olhou para um homem. Diz H que o homem tinha olhos verdes, vestia-se bem, trajava botas. Este homem olhou fundo em seus olhos e 'transformou-se no demônio'. H saiu correndo, tentou se matar. Desde então vive assolado por um medo que não sabe distinguir de onde vem. Um sentimento intenso de morte iminente. Não sai mais de casa só, não dorme direito, acorda com pesadelos com a imagem do demônio. Extrema confusão metal que não o deixa pensar, e que às vezes o impede inclusive de organizar frases para tentar se comunicar com seus interlocutores.
Levando-se em conta sua estruturação psíquica até os 20 anos e outros inúmeros dados que ele traz à consulta, como por exemplo um clímax emocional associado a uma descarga violenta quando exigido seu papel de homem através do filho adolescente, podemos conceber a psicose de H como uma resposta à homossexualidade, à exemplo do Schreber de Freud. Esta idéia conflitante, gerada talvez de uma aproximação demasiada com sua mãe que fez com que se sentisse misturado à ela, misturado á feminilidade, teve seu ápice no encontro com a atraente e misteriosa figura do bar.
A consulta com H é pesada, desconexa. Fala pouco e apenas quando perguntado, olha desconfiado e com medo, sobrancelhas contraídas, boca trêmula, um pedido de ajuda.
As primeiras sessões foram difíceis; muita concretude em seu discurso, poucas brechas a serem exploradas. Entretanto acredito que, na última semana quando o vi, em uma re-encenação do momento exato de seu surto, H pareceu ceder um pouco e alçar essa idéia conflitante que gerou esse desmonte em seu ego; começou a falar um pouco mais deste peculiar momento em que houve a troca de olhares no bar.
Acredito que aos poucos, com esse movimento de trazer de volta aquele momento, ele consiga trazer, lentamente, à consciência a idéia (de suspeita de homossexualidade) que sua estrutura jogou para fora e fez retornar em um ataque esquizo-paranóide.
Segunda-feira, Julho 05, 2004
As difíceis resistências
Acredito que a psico-análise de casos onde haja uma intensa resistência, se contrapondo ao próprio movimento terapêutico analítico, é difícil às vezes pelo fato do terapeuta não saber o quanto pode ou não avançar nas interpretações, no oferecimento de uma lógica dos sintomas que levem o paciente a tornar consciente o que deseja ficar no inconsciente.
Não obstante, a medida do quanto se pode ou não avançar na análise, penso eu poder ser feita por sinais sutis que o paciente apresenta no encontro terapêutico. Evidentemente também no que ele traz.
Posso ver em alguns casos que atendo que, conforme o grau de profundidade que transponho, de acordo com o gradiente consciência/inconsciência que o paciente é capaz de sustentar, as respostas são variadas. Em determinadas consultas, nas quais avanço um pouco mais, o paciente percebe um desconforto na semana seguinte. Uma angústia, uma força interior que ele não sabe caracterizar. Algo que lhe aflora como desagradável.
Quanto mais fundo se toca na ferida, maiores são as liberações emocionais. É um movimento estranho e traiçoeiro pois, deve-se ganhar a confiança do paciente, fazê-lo vincular com o terapeuta, e talvez até oferecer um conforto superficial, algo como um reforço egóico de superfície. Feito isso, quando o laço já é forte, luta-se contra a própria estrutura psíquica do indivíduo. Um movimento contra-corrente de superar, quebrar aos poucos e lentamente as barreiras da resistência. Vincula-se para depois se lutar contra, trazer à tona (consciência) o que ele (inconsciente) não quer que seja trazido.
Atendo um outro homem cujo papel masculino se viu fragilizado em determinado ponto da vida (o que tem se tornado comum). Teve um pai ostensivo, rígido e severo, como o caso do policial. Nas últimas vezes tenho avançado um pouco com a análise, aproximando ele desse fato, de sua educação paterna frágil.
Comicamente hoje ele trouxe o seguinte sonho durante a sessão; sonhou que seu pai havia morrido, e que uma pessoa viera lhe dar a notícia. Ele não via o rosto da pessoa, mas disse a ela que não estava preparado para ouvir o fato. Ele acordou angustiado, e de fato ligou para o pai logo em seguida, perguntando se estava tudo bem com ele.
Avançamos na interpretação deste sonho, e pude chegar a conclusão de que estávamos tocando exatamente nessas questões paternas. Sugeri a ele, indiretamente, que talvez ele não estivesse preparado para desvincular do pai.
O que, na realidade, é rancor guardado pelo pai que ele transpõe para todos os setores de sua vida onde haja algo de masculino. Tudo o que se refira mais cruamente ao masculino recebe sua raiva, seu ódio. Desejo este realizado durante o sonho, de matar o pai; pelas surras que recebeu durante a infância? Pela sua ausência?
Se tivesse que arriscar, falaria que a pessoa oculta que traz essa informação desagradável sou eu, que faço o papel desse contrafluxo.
Quinta-feira, Junho 24, 2004
O jogo de imagens - solidão coletiva
Já diziam alguns autores que no início do século passado, quando surgiu a psicanálise, os grandes problemas eram as neuroses, decorrentes de uma sociedade interditora, cheia de regras, castradora. Não permitiam isso e aquilo, e havia um grande entrave à realização dos desejos humanos, gerando a uma neurose coletiva. Freud iniciou sua clínica tratando por exemplo de casos de histeria, mulheres interditadas sexualmente com relação aos seus desejos sexuais, que extravasavam ele através da histeria.
Entretanto a sociedade mudou, e muito, nestes últimos 100 anos. O capitalismo cresceu, passou a ganhar o adjetivo de selvagem, e penetrou na vida e na personalidade das pessoas. A competição virou o primeiro objetivo pessoal, assim como a aquisição de bens materiais caríssimos e status social elevado, como meio de diferenciação entre indivíduos. Se antigamente havia uma constante sede por conhecimento, que fazia a diferença entre uma pessoa e outra, gerando Dali, Freud, Nietzsche, Einstein, hoje há um emburrecimento generalizado incrustado na materialidade como forma de diferenciação.
Exemplificando, pode-se imaginar que no começo do século XX os objetivos do indivíduo para ser reconhecido era escrever ou pintar uma grande obra, descobrir um grande invento, revolucionar o pensamento atual, contribuir para a cultura e para o caminhar da humanidade. Hoje em dia, fato que critico e que já coloquei diversas vezes neste espaço, os objetivos são materialistas, são o esmagamento do próximo socialmente através da comparação material. Nascemos pensando em ganhar dinheiro, escolhemos nossa carreira pensando em ganhar dinheiro, até casamos pensando em ganhar dinheiro. Dinheiro hoje em dia é status, é poder de aquisição, é diferenciação individual, é subjugação do próximo.
Observa-se então, galgado nessa estrutura de moldagem do indivíduo desde sua criação como criança, uma busca pelas imagens. Um desfile de carros, de roupas, de artigos de luxo cada vez maior que conseguem fazer a diferença entre um indivíduo X, e outro, inferior, Y. É evidente que seria estupidez afirmar que esse tipo de jogo imagético não existia no começo do século XX, mas digamos que ele ainda estava em segundo plano.
O constante bombardeio pela venenosa mídia que cria objetivos materiais a serem alcançados, o emburrecimento através do jogo que incita a pulsão de poder do indivíduo. Este poder, essa competição inerente a todos os animais, não se faz mais pelo pensamento, pelo desenvolvimento intelectual, mas agora pelo poder aquisitivo. Não importa o que eu faça, desde que eu esteja ganhando dinheiro. Quantos são os infelizes com o que fazem atualmente no emprego?
Este jogo de imagens, como não poderia deixar de ser, incita o mais profundo narcisismo no ser. Como na fábula, ele adorava a sua própria imagem, era carregado de orgulho e de desprezo pelos outros. Talvez transportando o mito para a atualidade, Narciso estivesse feliz por estar dirigindo uma Ferrari, vestindo um terno Armani, e morando em uma área nobre da cidade.
O narcisismo imagético em alta na sociedade; agora tratemos do lado negativo, do grande mal que assola a espécie humana. Narciso não existe por si só, ele precisa do outro para se mostrar, para exibir suas imagens e seu poder. Assim, apesar de toda a sua prepotência, o indivíduo narcisista de hoje precisa sim de alguém que o ouça. Apesar de em sua carapaça mostrar que não precisa de ninguém e que é independente, que é auto-suficiente em sua arrogância, no fundo ele esconde o lado de precisar do outro.
É esse precisar do outro que está soterrado hoje em dia. Esse precisar do outro é, como Narciso pretendia, visto como uma fraqueza, como um vexame. Este lado sofredor, este lado que ouve, este lado sentimental, deu lugar à estarrecedora muralha que se interpõe entre os indivíduos no seu jogo de imagens. Em suma, o lado sentimental está esquecido em prol do lado forte e teoricamente auto-suficiente narcisista.
O resultado disso é o que podemos ver por aí. Inúmeras pessoas se dizendo solitárias, choramingando por meios pelos quais não precisam se identificar (mantendo assim a forte carapaça narcisista) como a internet, com um lado afetivo explodindo por dentro por não encontrar lugar na sociedade hoje em dia. Este lado é visto como fraco, como frágil e indesejável. A sociedade narcisista condena os 'choramingos', a sentimentalidade, a afetividade. O lema de hoje é a produção, é a força, é o poder. Não há espaço para a dor, para a angústia, para o medo, compartilhados.
Finalmente, são criados as grandes válvulas de escape para dar conta deste lado humano que a sociedade narcisista não dá espaço. Os sangrentos filmes como "A paixão de Cristo", os espetáculos arcaicos de gladiadores nas lutas de vale-tudo pela televisão, os filmes que veiculam grande catexia de violência na televisão e cinema, as novelas que jogam com sentimentos 'tabus' como infidelidade, traição e assim por diante, enfim, meios artísticos que lidam superficialmente com os sentimentos normais humanos, infelizmente banidos na contemporaneidade.
A internet é outro enorme veículo de angústia, onde por exemplo, as pessoas não precisam se identificar, não precisam se mostrar e destruir suas carapaças narcísicas. Aqui as pessoas podem chorar, podem reclamar, podem colocar a dor e o sangue que correm em seus egos na tela, nos chats, nos blogs. Já vi vários comentários em blogs que mostram exatamente isso, que eles andam cada vez mais depressivos, mais angustiados. Angústia que não tem lugar na vida real. Resultado dessa enorme válvula de escape.
A título de exemplo, este blog de um amigo meu, que esteve passando por um grande sofrimento no ano passado, fez enorme sucesso com inúmeros comentários de compaixão, de força, de melhora. Muitos comentários superficiais e hipócritas, visando um extravasamento da emoção interna. Não critico em absoluto esse tipo de atitude, critico sim a sociedade atual, que não dá lugar a esse tipo de sentimento.
Terça-feira, Junho 22, 2004
Abordagem a um psicótico leve
No momento estou atendendo a um caminhoneiro, nos seus 40 anos, que tem um transtorno psicótico leve: fora desencadeado no começo do ano, começou a apresentar uma forte vivência de persecutoriedade e inclusive tentou se matar durante seu surto, que foi único.
Os motivos dinâmicos de seu surto não cabem serem explicados aqui, mas pode-se observar claramente os mecanismos psicóticos presentes no paciente. Uma parte não-psicótica de sua personalidade fora tocada naquele momento e gerou a crise, e desde então a paranóia, a perseguição o aterrorizam.
Houve a projeção dessa parte não desejada pela sua consciência, e à projeção seguiu-se o ódio, a violência e a ansiedade. Essa parte sua projetada no exterior tornou-se então um perseguidor.
Ele diz ter um sentimento constante de estar sendo perseguido, de que algo de ruim vai lhe acontecer, não sabendo identificar o que. Uma sensação de medo, de angústia que não cessa. Fez com que ele tivesse medo de sair sozinho de casa, só sai acompanhado do irmão, ergueu um muro em frente à sua casa, aguarda uma morte iminente.
Penso como deva ser a abordagem de uma parte não integrada de sua personalidade. Se o simples fato de ele ter feito essa abordagem por conta própria no decorrer de sua vida gerou esse surto psicótico, seria ele possível de, através da análise, religar esse pedaço perdido? Um pedaço tão arcaico e não integrado.
Penso que será uma análise longa e lenta, com progressão muito devagar, para não gerar outro surto. Algo bem delicado.
No momento estou atendendo a um caminhoneiro, nos seus 40 anos, que tem um transtorno psicótico leve: fora desencadeado no começo do ano, começou a apresentar uma forte vivência de persecutoriedade e inclusive tentou se matar durante seu surto, que foi único.
Os motivos dinâmicos de seu surto não cabem serem explicados aqui, mas pode-se observar claramente os mecanismos psicóticos presentes no paciente. Uma parte não-psicótica de sua personalidade fora tocada naquele momento e gerou a crise, e desde então a paranóia, a perseguição o aterrorizam.
Houve a projeção dessa parte não desejada pela sua consciência, e à projeção seguiu-se o ódio, a violência e a ansiedade. Essa parte sua projetada no exterior tornou-se então um perseguidor.
Ele diz ter um sentimento constante de estar sendo perseguido, de que algo de ruim vai lhe acontecer, não sabendo identificar o que. Uma sensação de medo, de angústia que não cessa. Fez com que ele tivesse medo de sair sozinho de casa, só sai acompanhado do irmão, ergueu um muro em frente à sua casa, aguarda uma morte iminente.
Penso como deva ser a abordagem de uma parte não integrada de sua personalidade. Se o simples fato de ele ter feito essa abordagem por conta própria no decorrer de sua vida gerou esse surto psicótico, seria ele possível de, através da análise, religar esse pedaço perdido? Um pedaço tão arcaico e não integrado.
Penso que será uma análise longa e lenta, com progressão muito devagar, para não gerar outro surto. Algo bem delicado.
Segunda-feira, Junho 14, 2004
Da construção teórica á prática - Avanços no caso do policial
Apenas realizando um rápido parêntesis, uso este espaço virtual como meio de organização de idéias, de simbolização de pensamentos, de construção teórica. Assim, procederei a um rápido compêndio do que meu paciente policial traz às sessões.
Seu discurso organiza-se ao redor de três temas principais:
- a diferença entre o policial de antes, forte, corajoso, sem medo, frio, sem muita labilidade emocional, afetivamente mais plano, que reprimia todas essas emoções; e a pessoa de hoje, que redescobriu todo esse lado afetivo, guardado sob pressão durante anos
- a ignorância da instituição polícia acerca desse lado humano do policial (deslocamento de sentimento de seu pai, que era muito severo e pouco afetivo com ele)
- a insegurança como homem, como pessoa, já que antes era totalmente diferente, já que não possui mais a segurança que a farda lhe dava.
Nesse âmbito hoje ele trouxe o primeiro assunto, o da diferença entre o antes e o depois, o incômodo que ele sente ao lhe parecer ter duas personalidades. Diz que essa diferença lhe ocorre hoje ainda, em situações de exigência emocional. Quando se vê exigido emocionalmente, ou tem crises de choro, ou procura isolar-se, ficar só, consigo mesmo, fechado.
As construções teóricas sobre este caso já são, de longa data, algo de bem familiares, como uma pessoa com um papel masculino fragilizado, e assim por diante. Mas a transposição para o prático estava se tornando um tanto difícil. Mesmo tendo em mente algumas idéias de Winnicott, sobre o deixar de lado a angústia e a ansiedade do analista que busca com impaciência que o paciente caminhe rapidamente, achava que talvez faltasse algum empurrão a ele.
Apenas um parêntesis, esta codificação masculina que se ausentara nele neste instante, desde sua crise, talvez trouxesse ele como uma criança desorientada à consulta, procurando ajuda, esperando que alguém lhe pegasse a mão para atravessar a rua. Estava estático, se colocando em uma posição por demais defensiva; como o antigo policial que fugia às demandas emocionais; esta relação pude fazer clara para ele através de algum esboço de psicodrama.
Coloquei-o (fisicamente) na minha posição, do meu lado da mesa, sentei-me então na cadeira onde ele estava, e pedi a ele que descrevesse os dois lados que via, as duas personalidades que sentia estar cindido em sua pessoa. Pode relatar com grande emotividade a ambas as suas partes, a pessoa emotiva versus a pessoa fria, que buscava uma fuga.
Partindo disso pude transportar esse modelo, usando as mesmas técnicas de encenação, para a pessoa que é hoje, emotiva, e o policial, que era frio e que suprimia seus sentimentos. Tracei então um paralelo, colocando-lhe que a fuga que ele tomava como resposta a exigências emocionais, assim como fazia durante a profissão. Fuga essa que terminou eclodindo em sua crise.
Através deste simples fragmento quero colocar a eficácia simbólica de tais métodos, como foi o da troca de papéis, o da encenação, e assim por diante. Ele já vinha apresentando um grande insight das interpretações que eu havia lhe oferecido, entretanto acho que esta última sessão produzirá um grande entendimento sobre ele mesmo.
Terça-feira, Junho 01, 2004
O grande esvaziamento (ou 'Manifesto Existencialista')
Tem-se tornado cada vez mais comum o esvaziamento com relação a objetivos vitais na contemporaneidade. Cada vez mais pessoas reclamando que não sabem pra que vivem, cada vez mais uma falta de propósito, uma falta de motivação e de finalidade. Uma indagação existencialista crescente sobre o que move as pessoas, os porques da marcha inexorável em direção à velhice, à morte, o sentido de tudo.
Identifico isso como um movimento de introversão que é observado com constância cada vez maior hoje em dia. Algo que, para abreviar o presente artigo, chamarei de 'introjeção existencialista'. Esta introjeção é fato, é real, e pode ser comprovada e observada. Um mal-estar crescente, principalmente nos grande centros populacionais, onde as pessoas são submetidas cada vez mais a estressores maiores.
As razões para essa introjeção podem ser teoretizadas das mais diversas formas, olhando-se pelos mais variados ângulos; a competitividade cada vez maior faz com que se exija mais e mais do indivíduo, submetendo-o a um estresse crescente; o isolamento social remetendo à introjeção da atenção; a super-especialização e superdivisão do trabalho, afastando-o do objetivo direto, fazendo com que o poder subliminante deste desapareça por ser por demais indireto (algo que examinei neste artigo); as exigências ao indivíduo em uma sociedade ferozmente competitiva começa cedo demais, submetendo precocemenmte a pessoa, já em sua formação, em sua individuação, ao princípio de realidade, etc. Esta última hipótese pode dar fio a um extenso desenvolvimento sobre o também crescente número de doenças psicóticas, e o conjunto de todas essas proposições descritas dão vazão também para a discussão das patologias narcísicas, mal que parece assolar com freqüência cada vez maior a sociedade. Mas não tratarei disso neste momento.
Fato inegável é que cada vez mais a desconstrução de objetivos tem sido uma constância na vida de metropolitanos desanimados com seus empregos, com seus objetivos. Não sabem mais a que trabalham, não sabem mais para qual propósito servem.
Penso que a desconstrução da finalidade vital seja gerada tanto pela introjeção, que se vê na obrigação de analisar a força motriz do indivíduo, como pela pouca adesividade e soberba artificialidade a que tem se proposto as marcas motrizes na vida de um indivíduo.
Chamo de marcas motrizes as marcas que são impressas em nosso psiquismo, que nos alteram e conformam nossa maneira de existir, e que posteriormente conseguimos elaborar em algo produtivo, algo com resultados externos, fruto da sublimação. A drenagem de impulsos prazeirosos para a produção laborial.
Pois bem, creio eu serem as proposições dessas elaborações hoje em dia muito fracas. As propostas futuras hoje são chatas, são artificiais, só condizem com o materialismo consumista que o capitalismo nos força, e que só poucos desfrutam. Uma ânsia vazia por poder, por dominação, à qual nem todos se submetem.
Daí a desconstrução do desejo, do projeto futuro. Tenho observado cada vez mais esse movimento existencialista, cada vez mais gritos de socorro dizendo que a 'paixão' que havia em tudo sumiu, que hoje em dia nada mais se faz por paixão, sim por poder, por dinheiro. É difícil encontrar hoje em dia alguém que faça algo por que *realmente* goste. Hoje é mais fácil encontrar alguém reclamando da vida por que esta está vazia, por que ele não sabe a razão de estar trabalhando naquela firma chata, por que ele não sabe o que está fazendo em um emprego tão entediante, por que ele não sabe de onde vem tanta fome por dinheiro e para que tudo isso. Falta paixão, os apaixonados se foram, os amantes da profissão são cada vez mais raros hoje em dia.
A arte dá cada vez mais espaço para grandes magazines, as grandes obras perdem espaço para lojas de carros, cinemas são cada vez mais comerciais, cada vez mais de acordo com o pensamento consumista.
Talvez o filme 'Diários de Motociclista' tente dar um último suspiro de uma geração que vivia em função da paixão, que se movia por algo interno e natural.
"Os grandes pensamentos originam-se mais de um grande sentimento do que de uma grande inteligência" - Fiódor Dostoiévski
(Figura retirada de "Arte e Psicose"; "Fúria incontrolável")
Sábado, Maio 22, 2004
Sobre a construção de obras e a produção artística
Depreende-se que um autor, assim como qualquer pessoa, procura 'experimentar um sentido' em sua vida, um significado, não apenas existir passivamente mas existir para um outro, existir para o mundo, sua inserção na realidade comum, na sociedade.
Nessa tarefa de existência para o externo entra em trânsito o mundo interno e impõe-se uma forma de comunicação, de sinalização; a constituição e apresentação de uma imagem, de uma impressão, a construção de uma identidade que será percebida pelo exterior. Esta identidade irá também se imprimir nessa mesma exterioridade, criando assim o seu mundo. Deste modo, fazem parte do seu mundo, construído pela marca do eu na realidade, fazem parte do seu biográfico, suas obras que, 'mesmo sem ele, haverão de existir para outros', sendo dessa forma resultado sublime da experimentação de um sentido na vida. Assim 'o curso da vida estrutura-se pela edificação do rendimento, do mundo e da obra humanos'.
Entendo que tomando-se assim a obra como fruto da sombra de um senso de identidade na realidade comum surgem algumas vertentes, apreendendo-se da obra os fenômenos existentes,e elaborando-os psicopatologicamente: a psicopatologia do filme em identificação à aspectos próprios de seu autor, e os fenômenos psicopatológicos de experiência comum.
Com relação ao segundo aspecto, é neste campo, o da ilusão e o da criação, área intermediária (Winnicott) entre o mundo interno (psíquico) e o mundo externo (realidade percebida por todos), que o autor habilmente maneja sua subjetividade e sua interioridade, de modo a empatizarmos com a obra. Através de sua obra e do manejo dessa área temos 'prazer em perceber as superposições, as experiências comuns'; fenômenos que, por transitarem justamente na área intermediária de ilusão possibilitada através da arte, podem ser compartilhados e daí adquirirem caráter subjetivo, matiz individual, constituindo a identificação, a empatia.
Depreende-se que um autor, assim como qualquer pessoa, procura 'experimentar um sentido' em sua vida, um significado, não apenas existir passivamente mas existir para um outro, existir para o mundo, sua inserção na realidade comum, na sociedade.
Nessa tarefa de existência para o externo entra em trânsito o mundo interno e impõe-se uma forma de comunicação, de sinalização; a constituição e apresentação de uma imagem, de uma impressão, a construção de uma identidade que será percebida pelo exterior. Esta identidade irá também se imprimir nessa mesma exterioridade, criando assim o seu mundo. Deste modo, fazem parte do seu mundo, construído pela marca do eu na realidade, fazem parte do seu biográfico, suas obras que, 'mesmo sem ele, haverão de existir para outros', sendo dessa forma resultado sublime da experimentação de um sentido na vida. Assim 'o curso da vida estrutura-se pela edificação do rendimento, do mundo e da obra humanos'.
Entendo que tomando-se assim a obra como fruto da sombra de um senso de identidade na realidade comum surgem algumas vertentes, apreendendo-se da obra os fenômenos existentes,e elaborando-os psicopatologicamente: a psicopatologia do filme em identificação à aspectos próprios de seu autor, e os fenômenos psicopatológicos de experiência comum.
Com relação ao segundo aspecto, é neste campo, o da ilusão e o da criação, área intermediária (Winnicott) entre o mundo interno (psíquico) e o mundo externo (realidade percebida por todos), que o autor habilmente maneja sua subjetividade e sua interioridade, de modo a empatizarmos com a obra. Através de sua obra e do manejo dessa área temos 'prazer em perceber as superposições, as experiências comuns'; fenômenos que, por transitarem justamente na área intermediária de ilusão possibilitada através da arte, podem ser compartilhados e daí adquirirem caráter subjetivo, matiz individual, constituindo a identificação, a empatia.
Teóricos avanços terapêuticos no policial
Com relação ao meu paciente policial, parece-me que ele ofereceu uma certa abertura para o que seja talvez o reconhecimento de sua condição.
Em nossa última sessão ele contou-me que tinha outros empregos fora de sua profissão principal. Entretanto, ao contrário do que se possa pensar de início, não era nada relacionado ao uso de armas ou de sua experiência policial; não era vigilante, segurança, nada disso. Ao invés disso, gostava de ser motorista, mecânico, etc.
Incomodava o fato de ele ser reconhecido positivamente, de ter boas qualidades ou seja lá o que for, atreladas a sua carreira policial. Já apresentava aí um desejo de desvínculo relacionado à farda. Uma farda que foi escolhida para suportar e apoiar seu papel masculino fragilizado, e que agora se desfizera, não suportando a supressão de sentimentos, e perdera seu sentido.
Com isso penso eu que tenha sido apresentado uma fenda em seus mecanismos de defesa, que se organizavam amplamente em proteção ao seu pai, à polícia, à sua posição forte e potente. Assim imagino que na exploração dessa falha apresentada ele possa chegar a um melhor conhecimento das condições que o levaram à escolha profissional, e o por que de tanta fragilidade, medo e insegurança após a destituição de seu estandarte masculino.
Analisando-se a estrutura do relacionamento que se impôs na corrente terapia, percebo que o paciente traz a transferência do pai na figura do analista. Demonstrações de masculinidade e de força entremeadas com momentos de profundo sentimentalismo (que lhe faltaram nesse relacionamento durante toda a sua vida), um pedido de ajuda e de um guia, se misturam e transitam velozmente. Mesma relação que tomou conta de sua vida após a brecha sintomática que lhe ocorreu após o acidente automobilístico em serviço, que gerou todo o seu transtorno de explosões de choro, fragilidade, insegurança, perda dos valores que adotou durante toda a sua vida. Oscila entre instantes de afastamento do mundo e quietude, introversão na procura de um poder, de uma força, e momentos de envolvimento descontrolado com toda e qualquer fonte de emoção, uma busca irrefreada de sensibilização.
Como sempre adotou os valores paternos, artificialmente, como escudo para sua fragilidade, sempre perseguindo os sentimentos como algo errado e passível de punição, evitava a crítica direta da instituição policial no que tange os seus valores de poder. Assim como, pela volta do deslocamento, evitava qualquer juízo de valor ruim com relação ao seu pai que sempre fora distante sentimentalmente e muito rígido.
Mas o que se apresentou agora como uma crítica ao cerne da questão, o fato de ele querer ser reconhecido pelo que ele era e não pela força que a farda trazia, já presente em seu passado, a busca de uma identidade além-farda, que ele revelou agora após terem cedido lentamente alguma de suas defesas, pode lhe ser muito útil.
Com relação ao meu paciente policial, parece-me que ele ofereceu uma certa abertura para o que seja talvez o reconhecimento de sua condição.
Em nossa última sessão ele contou-me que tinha outros empregos fora de sua profissão principal. Entretanto, ao contrário do que se possa pensar de início, não era nada relacionado ao uso de armas ou de sua experiência policial; não era vigilante, segurança, nada disso. Ao invés disso, gostava de ser motorista, mecânico, etc.
Incomodava o fato de ele ser reconhecido positivamente, de ter boas qualidades ou seja lá o que for, atreladas a sua carreira policial. Já apresentava aí um desejo de desvínculo relacionado à farda. Uma farda que foi escolhida para suportar e apoiar seu papel masculino fragilizado, e que agora se desfizera, não suportando a supressão de sentimentos, e perdera seu sentido.
Com isso penso eu que tenha sido apresentado uma fenda em seus mecanismos de defesa, que se organizavam amplamente em proteção ao seu pai, à polícia, à sua posição forte e potente. Assim imagino que na exploração dessa falha apresentada ele possa chegar a um melhor conhecimento das condições que o levaram à escolha profissional, e o por que de tanta fragilidade, medo e insegurança após a destituição de seu estandarte masculino.
Analisando-se a estrutura do relacionamento que se impôs na corrente terapia, percebo que o paciente traz a transferência do pai na figura do analista. Demonstrações de masculinidade e de força entremeadas com momentos de profundo sentimentalismo (que lhe faltaram nesse relacionamento durante toda a sua vida), um pedido de ajuda e de um guia, se misturam e transitam velozmente. Mesma relação que tomou conta de sua vida após a brecha sintomática que lhe ocorreu após o acidente automobilístico em serviço, que gerou todo o seu transtorno de explosões de choro, fragilidade, insegurança, perda dos valores que adotou durante toda a sua vida. Oscila entre instantes de afastamento do mundo e quietude, introversão na procura de um poder, de uma força, e momentos de envolvimento descontrolado com toda e qualquer fonte de emoção, uma busca irrefreada de sensibilização.
Como sempre adotou os valores paternos, artificialmente, como escudo para sua fragilidade, sempre perseguindo os sentimentos como algo errado e passível de punição, evitava a crítica direta da instituição policial no que tange os seus valores de poder. Assim como, pela volta do deslocamento, evitava qualquer juízo de valor ruim com relação ao seu pai que sempre fora distante sentimentalmente e muito rígido.
Mas o que se apresentou agora como uma crítica ao cerne da questão, o fato de ele querer ser reconhecido pelo que ele era e não pela força que a farda trazia, já presente em seu passado, a busca de uma identidade além-farda, que ele revelou agora após terem cedido lentamente alguma de suas defesas, pode lhe ser muito útil.
Segunda-feira, Maio 17, 2004
As invasões bárbaras (Les Invasion Barbares)
Um homem por volta de seus cinqüenta anos que está severamente enfermo, e que se encontra em seus últimos dias de vida resolve reunir a família, os amigos.
Um filme denso, emocionalmente e 'filosoficamente' já que expõe diversos pontos e opiniões fortes e ríspidas acerca da atual maneira em que funciona a sociedade contemporânea.
A respeito disso, a trama é em vários pontos entremeada por pequenas cenas curtas, de poucos segundos, onde são dramatizadas situações que envolvem uma profunda reflexão sobre diversos temas; não obstante, pode-se observar como mote da maior parte destes temas, que sobressaltam em inúmeros momentos no filme, o existencialismo.
Desde momentos descontraídos onde os vários personagens se encontram enfileirados e falam de seus vários 'ismos', correntes de pensamento que os movimentaram e os impulsionaram durante a vida, até partes extremamente angustiantes onde o protagonista se sente tão perdido como se tivesse acabado de nascer, sem um sentido em sua vida; nada aprendera.
E talvez a crítica mais central seja à perda dos valores, a substituição dos valores humanos pelo monetário, a mercantilização do homem. A auto-corrupção do próprio sistema que, se no começo teve como principal objetivo a segregação e a exploração dos excluídos, a dicotomia entre os desenvolvidos e os sub-desenvolvidos, à exemplo disso a exclusão racial por parte do Grande Império de hispânicos e negros, agora não mais consegue se manter livre das drogas e da corrupção de toda e qualquer parte da sociedade, problemas comuns dos países pobres ('você acha que estamos no terceiro mundo?' responde a chefe do hospital ao receber uma proposta de suborno, que acaba aceitando posteriormente), tem de sucumbir à inevitável miscigenação de 'les invasion barbares'.
Isso a um nível macro-organizacional, um molde que se sobrepõe ao homem em seu funcionamento como um todo.
Individualmente ressalta-se o vazio existencial gerado pela busca do poder, pelo enriquecimento não humano mas proprietário. O materialismo da sociedade moderna e consumista substutui o humanitarismo. Algo que a nível do indivíduo singular se torna um pseudo-enriquecimento já que esses valores, os associados ao materialismo, são totalmente artificiais à sua essência, aniquilando o sentimento, o vínculo humano. O vínculo agora se torna material, não espiritual, não humano. Vínculo ao poder do papel, da moeda.
Terça-feira, Maio 11, 2004
Cidade dos Sonhos (Mulholland Drive) - David Lynch
A realidade psicotizada
O filme choca, confunde, atordoa, como qualquer filme do diretor. Uma viagem na subjetividade de Betty, inicialmente uma mulher sorridente, com sonhos a serem construídos em Hollywood, como qualquer aspirante a atriz que busca o glamour e o charme da Cidade dos Sonhos, que posteriormente se revela uma matadora psicótica.
É fantástico a maneira como é traçada toda uma história ao longo do filme, com intensos conteúdos desejantes, que ao final é revelado como uma densa construção delirante do que na realidade é fruto da frustração de Diane.
Frustração amorosa e profissional, ambas através da mesma pessoa, Camilla Rhodes (sua amante em uma relação lésbica), que a abandona para casar-se com um homem e toma o papel principal em um filme.
Delírio esse todo construído com o material real que nos é revelado ao final do filme, após um colapso emocional de Diane.
Particularmente a obra me remeteu, em muito, à conversa com psicóticos; parecia-me que estava vendo através dos olhos de um, vividamente. Um conteúdo fragmentado criado após uma quebra de continuidade vital; no caso o colapso de Diane ao ver o anúncio do casamento de sua ex-amante.
A criação de um mundo fantástico de ilusão arquitetado com componentes da vida anímica cotidiana, onde o ponto de contato com a realidade seria a caixa azul, que é aberta ao final do filme. É interessante perceber como, pouco antes de ser aberta a caixa, de ser encontrada a 'chave para a realidade' que não quer ser encontrada, Diane tem uma convulsão no Clube Silêncio, o que pode ser hipotetizado como uma perda de consciência com o eu, justamente por esse embate entre o real e o fantástico que ela criou.
Um jogo imenso de projeção que acaba cindindo Diane em duas pessoas, Betty e Rita.
Outro aspecto importante, além de uma fantástica estrutura 'psicótica' que nos é desenhada, talvez seja o jogo entre realidade e ilusão. Com certeza a cena mais forte e impactante, não pelo seu conteúdo real mas sim por sua projeção no imaginário de quem assiste, seja a do Clube Silêncio.
'No hay banda'. Não há banda, mas pode-se ouvir a música. Não há orquestra, mas ouve-se o trombone, o trompete. A atriz canta vigorsa e emocionadamente, ressoando toda a sua emoção na platéia, incluindo as duas protagonistas que choram perante a tal demonstração artística. Entretanto a cantora cai e a música continua, percebe-se depois que é uma gravação e o estupor atravessa a película para atingir quem está assistindo ao filme. 'No hay banda'
A perplexidade de quem se emociona por algo que é falso; ludibriado por investir tanto sentimento em algo que não existe, que é arranjado. O investimento emocional na fantasia. Mas não é isso que fazemos corriqueiramente?
Quantas vezes não podemos falar que 'no hay banda' em nossas vidas? Quantas vezes não sentimos a necessidade de usar o fantástico, a ilusão, a criação para extravazar impulsos, para dar vazão aos desejos, para enganar a dura realidade que não nos é apresentada como farta, complementar e satisfatória?
Talvez a perplexidade da ilusão não seja mera hipocrisia, em um sentido menos carregado da palavra, mas uma hipocrisia contra algo que é inerente ao ser humano; algo que possa ser nomeado como uma defesa contra a histeria, ou simplesmente contra a neurose, já que a histeria não deixa de ser a neurose primordial.
'No hay banda', como posso me atrever a me emocionar perante isso?
(Uma outra análise do filme aqui)
